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Mudança de endereço

Sempre gostei de escrever. Qualquer coisa. E, quando conheci Ariane, tinha o costume de enviar-lhe, por e-mail, alguns poemas.
Ela me sugeriu, então, postá-los no seu blog destinado aos amigos.
Como ela mesma já contou aqui, depois de relutar, resolvi publicá-los no Retalhos Amigos, ao lado dos demais.
Entretanto, pela regularidade com que eu enviava textos, enquanto as outras pessoas só o faziam esporadicamente, o blog tornou-se quase exclusivo para mim, o que acabou acarretando muitas confusões.
Agora, interagindo com tantas pessoas, com tantas amizades preciosas e com minha vocação de escrever intacta, resolvi, com o apoio da Ariane, criar meu próprio espaço.
A partir de então, passo a postar no Pretensos Colóquios, um despretensioso blog, de Dora Vilela.
Agradeço essa resolução sobretudo à Ariane, que continuamente incentiva meus projetos e a vocês todos que sempre me prestigiaram.
Dora Vilela
http://pretensoscoloquios.zip.net
Escrito por Dora às 16h09
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EGOÍSMO

Seja este verso só meu,
inconfundível, mesquinho,
rude, de pobre lavra,
inútil e desconsertado,
porém meu e só meu,
revirando o avesso,
torcido na pele,
suado de sangue e suor,
um verso tão livre
de tão inevitável,
mas, meu, e ainda meu,
e do fundo da mina
do escuro insondável.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 10h52
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INCOMUNICABILIDADE

Meu grito não ouvem,
meu sussurro o vento leva,
minha eloqüência é muda,
minha paixão é inócua.
Meus gestos são insensíveis,
minhas lágrimas desapercebidas,
minha profecia é vã,
minha tristeza, escarnecida.
Se falo, minha palavra é tola,
tão tola quanto a intenção
de a falar, sabendo-a inútil.
Inútil é pensar e criar.
O que sai de mim está perdido,
o que vem prá mim se consome,
o que percebo, não uso,
e do que não uso, careço.
Meu sorriso me antecede
na ironia que respiro,
minha voz é só a ilusão
das sombras do que pressinto.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 08h49
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Poema singelo de Natal
Natal para o mundo,
para cada consciência,
caindo em filigranas,
douradas, prateadas,
num só laço inteiro,
embrulhando o planeta,
num mimo agradável,
em papel de oferenda.
Natal que se oferece
em prece e perdão,
não importa o motivo,
é sempre a ocasião.
Que nasça o Menino,
se encarne, nos salve,
o preço do enlace
é só a união.
Mãos universais,
entrelaçadas, trançadas,
formando um cordão,
que ultrapasse os limites
do seu e o do irmão.
Natal, solene e leve,
sopre sua brisa
em cada um de nós,
que a graça,
mistério escondido,
quem sabe, ainda renasça,
em algum de nós escolhido.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 07h40
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COMBATE DESIGUAL

Na praia deserta, propícia,
cenário ideal de areia enganosa,
afundo meus pés, em colóquio
com o mar de sempre.
Ele vem e provoca,
se retrai, se enovela,
num falso rodeio
de duelo já pronto.
Posso fugir, posso ficar,
suas ondas se riem
da minha vertigem
que teima em voltar.
Confirma sua força
num ruído de estrondo,
confunde minha fala
que se perde, se cala.
Ele é parte de mim,
eu sou feita dele,
ele tem sua forma
de me transtornar.
Mas, posso contê-lo,
apagá-lo, bebê-lo,
com todo meu empenho...
Pensamento humano, mortal...
Dora Vilela
Escrito por Dora às 11h23
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SONHO DE PODER

Ah! ser dona do mundo
e mãe de todos os homens,
acalentá-los num único abraço,
transformar-me, de inesperado,
em coadjuvante divina,
soprar-lhes a vida e a graça,
viajando ao início do caos,
de um enorme e fecundo ventre
doá-los à luz novamente,
ser mãe dos homens todos,
junto a eles, irmanada,
ser-lhes o ser e o tempo,
possuí-los em mim,
carregá-los nos braços,
sem cruz e sem morto passado,
só a esperança à frente
a guiar-nos os passos,
só a clara e límpida madrugada
de um ceú lavado, inocente,
que minhas mãos ansiosas
irão desenrolar
feito larga esteira
ante esta vasta orfandade
que então acolherei
em fértil maternidade!
Dora Vilela
Escrito por Dora às 17h33
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AMBIÇÃO

queria poema duro,
másculo e forte,
de apontar com o dedo,
em riste,
de mostrar o ouro
prá quem não vê...
queria palavra convexa
abrangendo coisa,
afastando finuras,
iluminuras, fechaduras...
queria verbo de envergadura,
chão de terra batida,
pisado de pés nus,
encontro de naturezas...
queria, como queria!
não ter pieguice de frases,
não ter medo do fundo dos rios
e ter coragem de profeta...
queria também
só chorar prá dentro,
ante a verdade do vento,
ante a dureza da pedra,
na verdura do mato...
queria, mas não atino
com esse talento de força,
esse poder dito viril
e exibo só
poucas frágeis linhas
de vocábulos descarnados
adjetivados,
sem a substância
da veracidade
da rude vida!
Dora Vilela
Escrito por Dora às 10h14
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DESVANESCENTE

fora do tempo,
espero a hora,
o luar lá fora,
a areia prateada,
o coração nas mãos,
a espreita nos gestos,
o gosto na boca,
os sentidos despertos,
a brasa no corpo...
a hora se gasta,
a lua se esconde
nas nuvens dispersas
a areia escurece,
o coração se divide
os gestos se crispam,
a boca se amarga,
os laços se rompem,
os sentidos se esgotam...
a hora se despe,
a lua adormece,
o corpo amortece,
as mãos envelhecem,
a boca se torce,
o viver se entorpece...
Dora Vilela
Escrito por Dora às 09h02
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NOMEAÇÃO

Peço desculpas sinceras
por não compreender
aqueles que me sinalizam
que me agitam os corações
feito alvos lenços,
que me puxam pelo braço,
que me chamam pelo nome.
Estonteada, decifro mal esses apelos.
Quero entender o mendigo de chapéu na mão,
é só uma esmola que deseja?
é só uma história que me conta?
é só um maltrapilho faminto?
Necessito dar nome ao sobressalto que me causa.
Tenho que desvendar a sensação intensa
de culpa, de dúvida, de impasse,
que me transmite no olhar.
Preciso nomear cada instantâneo
dos indecifráveis chamados.
E os subterfúgios, e as lacunas,
e os não-ditos?
E o roteiro deste estranho itinerário
que afinal não escolhi?
Que fazer do descompasso,
da inadequação,
do desencaixe?
Reitero minhas desculpas,
e continuo calada.
Escrito por Dora às 17h19
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GATO

Escolho o momento,
arranjo o close,
espremo o olho
na objetiva da minha máquina.
Enquadro o gato, na minha soleira,
o trago prá perto, bem sorrateira,
miro, remiro, acerto,
aperto o botão.
Quero fixá-lo, gravá-lo,
olhá-lo nos olhos,
a este gato, felino dengoso,
ímã terrível da minha câmera.
Tento captá-lo, apreendê-lo,
penetrar seu segredo,
desvendar seu mistério
de existir sem medo.
Ele vive com força,
sete vidas, talvez,
sem luta, sem drama.
Só vive, revive,
me atiça esta chama
de ser gato também
(sendo eu mesma e minha dona).
Dora Vilela
Escrito por Dora às 19h05
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HERDEIROS

A meus filhos
farei testamento,
transmitindo, além do legado
em sangue e falsa liberdade,
um medo imenso e ancestral
que de meus pais recebi.
Não é oferta honesta,
nem laborada em franca opção,
nem de punho próprio lavrada.
Mas, é herança que não se desdenha
do impossível resgate que tem.
Meu medo os percorrerá
pelas veias,
sob a pele,
arquétipo indesejável,
que me susteve e os sustentará.
Tive medo de viver,
de acordar
de ver no espelho
a verdade revelada.
Passei medo ao navegar
entre vagalhões e brisas.
Tive medo do medo
e o susto das revelações.
Ancorei num sumidouro
de vozes e fantasmas.
E o medo na garganta
com seus dedos hirtos
me ensinou que ter medo
é o mesmo que ter nascido.
Ora o lego a meus filhos,
que o ganharão na estima
e o sentirão com orgulho
de materna e genuína herança.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 09h55
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QUASE BIOGRAFIA

Nua, em pé dentro da banheira branca, eu borrifava água na boca aberta dos peixinhos. Queria dar de beber a cada um deles, desenhados em tons vivos, bem rechonchudos, na cortina de plástico que cercava a banheira.
Molhava toda a beirada, sem nada perceber, distraída em contar e recontar se não faltava nenhum peixinho para beber. Não me cansava nem me entediava nunca olhando os bichinhos com as boquinhas redondas, bem abertas, como a implorar pelas gotas d'água.
De repente, num sobressalto, ouvia mamãe a bater na porta, perguntando se eu morrera lá dentro. Sempre achava graça naquela espécie de pergunta retórica. Como eu poderia ter morrido? Ou será que poderia?
Olhando meus pés arroxeados pelo tempo em que eu estivera dentro d'água, imaginava como seria se eu tivesse morrido lá na banheira.
Mamãe não se dava conta do que falara. Era uma forma corriqueira aquela de perguntar se alguém morrera, uma entre tantas manias que se adquirem nas conversas comuns do cotidiano. Mas, as pessoas deveriam examinar o que falavam. Diria isto a mamãe e ela se mostraria surpresa com mais uma das minhas invencionices.
Eu saía do banheiro, enrolada na toalha e corria para o meu quarto, onde mergulhava na cama, antes de colocar roupa.
De barriga para cima, olhando o forro de madeira, encaixada em trilhos que me lembravam vários caminhos de trem, lá voltava eu a cismar.
Pensava nos trens que poderiam passar por cima de minha cabeça, indo e voltando pelo quarto inteiro.
Mamãe chegava a perder a paciência e se irritava com meus devaneios.
Às vezes, ouvia-a resmungar se eu não seria desmiolada ou tonta, com aquela inconseqüência de me esquecer das horas.
No entanto, ela mesma sabia que eu não era irresponsável nos deveres, em casa ou na escola. Ao contrário, superava todas as expectativas dela em qualquer atribuição, sobretudo de caráter intelectual.
Porém, não conseguia nunca me livrar daquelas manias de perder a noção do tempo, quando me punha a fantasiar.
Se eu ia comprar pequenas encomendas dela na padaria próxima, era comum eu perder o dinheiro na rua ou me esquecer do troco no balcão da loja.
Sempre fora motivo de risos por parte dos adultos da família que conheciam minha fama de distraída e dispersa.
Cresci assim e acho que piorei.
Desenvolvi a tendência de valorizar a introspecção e a forma de aperfeiçoar minuciosamente e personalizar cada coisa: burilar manualmente, tornar a coisa tão íntima, entronizá-la na memória, na pele, no ser.
Toda atividade massificante, sem rosto, sem toque pessoal me passou a ser odiosa, frustrante e cansativa.
Com o crescente progresso industrial, marca da minha era, com a famigerada tecnologia, mantive sempre uma relação de fuga e pânico.
Somente a duras penas, fui aceitando a realidade que me foi chegando, a mim me parecendo um mundo árido, impesssoal, que quase me aniquilou e me transformou num ente solitário entre as gentes.
Não fui vencida pela máquina, porque sempre brota uma flor no asfalto.Mas jamais consegui uma convivência pacífica com tal realidade.
Minha luta foi sempre desigual, ridícula. Paguei alto o meu tributo de viver no tempo que me foi designado.
Enfim, vivi comigo mesma e com o mundo, em dicotomias profundas, que acabaram por me conformar o temperamento e o modo de ser.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 18h21
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SAUDAÇÕES

Não falo dos homens
amarrados ao meu contexto,
não me concernem os homens
sistemáticos, escravos
das ideologias.
Busco os homens
nas ermas plagas jurássicas.
Prefiro as mãos quase garras,
os primatas caçadores,
os dentes pontiagudos,
os dorsos recém-verticais,
se erguendo chão.
Quero os homens
descobrindo as verdades,
temendo o trovão,
tateando no escuro,
gerando, com vagar,
meus arquétipos.
Meu coração infantil
bate por eles.
Minha tristeza vã
vibra com eles.
Arremesso-lhes minha saudade
que é sem endereço.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 14h27
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PRIVILÉGIO

Meu amigo, meu irmão,
que vê tão longe,
tão fundo e tão largo!
Sou teu igual, sou teu sangue,
tua matéria,
e o olhar tão outro!
Enxergo perto, enxergo aqui,
no mesquinho do sujeito.
Onde encontrar tua grandeza?
igualar teu horizonte?
saber tua direção?
Abranges a imensidão
com o diminuto que olhas,
eu só vejo o cisco
do meu próprio olho.
Teu coração é amplo
de movimento ondulatório.
Sabes do ontem e do amanhã
porque adivinhas
que o hoje não existe.
Meu amigo admirável,
só percebo o meu "agora"
e me agarro nesta ilusão.
És poeta, meu irmão,
e não te posso acompanhar
com minha vesga visão.
Mas, se tropeço,
és meu cajado,
e te devo
minha vida
e minha salvação.
Não te invejo,
não te imito,
só te sigo,
e te persigo,
e te bendigo.
Escrito por Dora às 10h06
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ESCOLHAS

Não posso cantar as ruas,
não as vejo, nem demoro
nelas o meu sentido,
nem as céleres avenidas,
ou as mortes-auto-estradas
são meu percurso na vida.
Não enxergo as galerias,
bulevares e esplanadas,
deslizo por baixo das pontes,
sobrevôo os viadutos,
não passeio em passeios públicos,
e abomino os lugares comuns,
me fecho ante as vias todas
que me levam onde é prá ir.
Antes, as trilhas ceifadas,
cortadas nos canaviais,
os atalhos serpenteados,
as sendas dos vendavais,
na rota das ondas,
nas margens dos rios,
meus pés já me contam
o ansiado caminho.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 20h24
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