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Sentimentos

Sensibilidade, os olhos que vasculham o transfinito. A visão se aguça a cada segredo descoberto e a cada segredo surgido. Nem sempre o que vemos nos alegra, mas o curioso é que também não seríamos felizes sem essa descoberta, portanto, e felizmente, há o orgulho de podermos vislumbrar esse mundo a parte.
Nesse mundo habitam os sonhos, os sentimentos puros, a inocência perdida.... que bom sermos inocentes mais uma vez, observar alguém timidamente, num movimento temeroso de baixo para cima com a cabeça, as sobrancelhas erguidas demonstrando ansiedade, apenas para que no momento em que os olhares se cruzarem, um sorriso encabulado mas espontâneo surgir e revelar o melhor que possuímos, o amor desconcertante.
Cada toque de uma ponta do dedo é mais do que um abraço, um abraço é mais do que um beijo e um beijo é mais do que possamos imaginar. Cada momento que se vive assim é mágico, fica gravado em preto e branco, marcado com o perfume que lembramos da infância. Fica a alegria de apenas sentir e amar mesmo sem entender.
Layla Almeida
Escrito por Ariane às 11h33
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História de Criança

Quando eu era menino, queria ser lutador de boxe. Eu gostava mesmo daquilo. Minha vida era lutar boxe. Naquele tempo, academia de luta era coisa rara. Ainda mais numa cidadezinha do interior. Eu não tinha onde aprender. Lutava com meus sonhos. Um dia, o cinema anunciou um filme. Um filme sobre boxe! Aquilo virou minha cabeça, balançou minhas cordas. Enfim veria os bastidores, a coisa por dentro, os meandros. Seria minha primeira lição sobre o mundo do boxe. No dia da estréia, lá estava eu, com minha roupa de gala. Camisa ganha no aniversário. Novinha. Calça de ir à missa. E o deslumbrante sapato Verlon! A lição começou cedo. Logo na entrada fechei a cara, encarei o porteiro com olhar decidido. Estava disposto a brigar pelo meu direito de entrar. Mesmo não tendo a idade que a censura me impusera. Uma decisão injusta, diga-se de passagem. O porteiro olhou-me sério. Um adversário à altura. Meu coração lutador comportou-se bravamente. Aliás, excetuando um calafrio repentino que me subiu pela espinha, e um leve tremor nas pernas e nos lábios, a situação estava perfeitamente sob controle. O adversário mediu-me de cima abaixo. E, talvez, se sentindo inferior na disputa com um sorriso meio irônico no canto da boca - coisa de perdedor - resmungou:
- Entra logo, moleque.
Antes que ele terminasse, eu já adentrara o cinema. Nunca fui tão ligeiro. Agüentei firme a propaganda, os traillers, o jornal. Um teste para meus nervos de aço. Enfim, o grande momento! O filme era sobre um lutador medíocre, decadente, em fim de carreira. Só servia mesmo para apanhar dos mais novos. O lutador de boxe, quando recebe um golpe forte, que ele sente, olha firme no rosto do adversário, dá um sorriso e chama pra briga. Não pode jamais demonstrar que foi atingido. Esse lutador, muito hábil na arte de apanhar, tinha desenvolvido um sorriso estereotipado. A cada golpe que recebia, apresentava o sorriso. Sempre o mesmo. Numa determinada luta, ele estava apanhando muito. E a cada golpe abria um sorriso. E como os golpes foram se seguindo, o sorriso ficou ali, em mostra permanente. Ao receber um golpe mais forte, em cheio, o lutador caiu de joelhos, sorrindo. Revirou os olhos. Emborcou de cara na lona. O juiz parou a luta. Nem abriu contagem. Os segundos entraram no ringue para socorrer o lutador. Ao levantá-lo, ele estava desmaiado. Com aquele sorriso estampado no rosto. Foi minha primeira e última lição. Eu não quis mais lutar boxe. Mas guardei a impressão daquele homem olhando de frente para a sua dor. E sorrindo...
Squelletto
Escrito por Ariane às 11h25
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Vivência

Na ladeira que sobe e desce,
mão na mão, olhar perdido,
se sentindo, se medindo,
não sabem se estão subindo
nem se tocam o leve chão.
São enamorados, são passarinhos
que experimentam as asas,
levando sementes,
no ensaio do vôo.
Invisíveis, sozinhos,
heróis sem façanhas,
encantores e encantados
portadores de ideais.
O mundo é ficção
no imponderável que os cerca.
Na roda da vida
tomam a sua vez.
Miram-se no próprio mistério
ciosos de um amor singular
e da auto-suficiência.
Mão na mão, se carregam,
se mimam, se encostam
aproximando os opostos,
resumo da criação.
São inacabados, são fases,
são partes que se procuram,
são ímpares que se juntam
no mágico par, que se basta.
Inocentes e trágicos,
inconscientes , incautos,
mão na mão, olhar perdido,
agora sobem a ladeira
que um dia, íngreme,
ainda descerão,
mão na mão, olhar no chão
à procura da marca
dos passos,
que no ar, deixaram, então.
Tarsila
Escrito por Ariane às 17h08
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Fragmentos

"Poesia é um exercício de auto-conhecimento, de entrega bobinha e muito generosa. Quem dá a cara pra apanhar também ganha band-aid."
(de Diana-Dru para Geórgia, homenageando o dia das enamoradas)
Escrito por geórgia às 12h10
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Busca

[imagem: Laura Sisqueiros]
Minha face obscura
me propõe acordos,
afagos, doçuras.
Não creio, não posso.
Há promessas de dor antecipadas.
Livro-me de mim,
abraçando o fugaz.
Mas quero o atemporal,
a custo alto e sofrido,
mesmo que me negue
mesmo que me mate.
Tarsila
Escrito por Ariane às 20h35
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SAUDADE
Persegue o meu cheiro com teu fino faro de lembrança exata, memória cheia no gemer da noite.
(Cristina Evelise)
[Cristina Evelise (cristinaevelise@ig.com.br) nasceu em Huambo, Angola e reside na Paraíba.]
Escrito por Ariane às 12h46
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Quimera

Meu sonho alcança
com o longo braço
teu abraço impossível.
Faço e desfaço o desejo
voando espaços,
engolindo distâncias,
criando vivências.
Nem sei tua voz
tua matéria e forma.
Sei tua forma maleável
em minhas mãos de escultor.
Preenches lacunas
indesejáveis, forçosas.
Cumpres, sem perceber,
minha pena, minha sina,
na cela que me doei.
Não quero te ver
tangível, certo, definido.
Prefiro-te nebuloso
coberto com meus instantes,
com os supérfluos de que te revisto
com os caminhos que te invento.
Não és ninguém, nem nada,
mas és muito mais que tudo,
sonho dentro do sonho.
Tarsila
Escrito por Ariane às 01h41
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Retalhos Amigos

Recebemos textos lindos em nossos e-mails de amigos que, por um motivo ou outro, relutam em administrar seus próprios blogs. Acho que há textos e poesias lindas que devem ser publicados, então criei este espaço para divulgar textos de amigos relutantes.
Escrito por Ariane às 01h35
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