Retalhos Amigos


Fantasia Noturna

Bem calmo em frente a sua cabana,
o lavrador se senta na sombra,
contente ao aquecer seu fogão.
Hospitaleiro, toca o sino noturno
do povoado tranquilo, para
saudar os viajantes.
 
No porto, os navios chegam,
e em cidades longínqüas, 
o barulho de agitadas feiras
vai cessando aos poucos.
No caramanchão  sereno e calmo,
uma refeição agradável anima os
companheiros.
 
E eu para onde irei ?
Mortais vivem de recompensa e trabalho,
alternando esforço e descanso.
Para eles, tudo é alegre;
Por que então não me dorme no peito
tão afiado espinho ?
[continua]


 Escrito por Ariane às 00h09
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No céu da noite, já floresce a primavera.
As rosas desabrocham bem calmas,
sem atentar para o tempo.
Desabrocham sim, num mundo dourado.
Oh, que me levem elas, para lá,
perto das  nuvens purpúreas...
E que então em luz e ar derretam
sobre mim amor e sofrimento.
 
Mas como se afugentado por tal
insensato pedido, o encanto se esvai;
torna-se escuro  sob o céu e
me deixa solitário, como sempre me
sinto.
 
Venha então, sono tão desejado,
venha aquietar meu coração;
Ah, esperada juventude,
tão inquieta e sonhadora,
agora me abrandas no peito.
 
Agora sem medo, calmo
e alegre é o envelhecer.
 
[Friedrich Hölderlin - adaptação, de uma tradução original do alemão]
por alexandre dines


 Escrito por Ariane às 00h08
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ACERVO DE SAUDADES

De todas as minhas saudades, a maior é a da casa da minha avó.
AH! A casa da minha avó paterna, tão distante no tempo!
Meu pequeno ser a afigurava alta, enorme, acolhedora.
Dentro dela sentia a segurança de quem tem raízes e uma confiança ilimitada no bem-querer de seus habitantes.
Tinha a certeza de ser amada, prezada, no interior daquelas paredes que eram minhas, faziam parte da minha vida passada.
Não conheci meus bisavós, nem mesmo meu avô paterno, mas sentia orgulho de pertencer, de estar ligada àqueles adultos, com fotografias na sala principal.
É um curioso sentimento de orgulho este de se querer ser parte de um todo, de ser um elo de uma cadeia.Eu possuía este sentimento que me acompanhou vida afora e nasceu na casa da minha avó.
Até onde a lembrança me leva, lembro-me de não me importar nem mesmo em saber que espécie de pessoas eram meus antepassados.O importante era saber que antes de mim houvera uma corrente, que me levava para trás, que me unia talvez a um mundo remotíssimo e ainda assim, meu mundo.
Essa consciência de possuir um fio centrado em mim mesma não era característica infantil.Permenece comigo até hoje.
Quando me encontrei, um dia, em uma circunstância fortuita, no meio de uma grande cidade estrangeira, onde eu era apenas uma anônima transeunte, um ser humano entre centenas de outros, senti agudamente uma terrível impressão de queda, de perda de identidade, de pânico.Foi a primeira vez que me dei conta da vital precisão de significar alguma coisa para mais alguém, que não eu.
A experiência foi marcante e esclarecedora.Ela me remete sempre àquela sensação da infância, o que me faz amar a casa de meus avós e ao mesmo tempo sentir-me ridícula.
O amor se prende ao fato de encontrar uma espécie de significado para a minha existência; afinal sou a continuação de um encadeamento lógico e natural: minha árvore genealógica.
O ridículo é pensar que fora desta árvore me sinto perdida, como uma folha que se desprende da própria seiva da vida.
Afinal de contas, se se generalizar, todo ser humano tem a mesma raiz e, de certa forma, a humanidade inteira é uma só floresta dentro do universo.
Porém, a mim me parece uma idéia exageradamente abstrata e forçada supor-me ligada a um habitante da China ou a um esquimó.E rigorosamente falando, há muito que se filosofar para se chegar a uma afinidade pessoal com seres humanos talvez até mais aproximados de nós.
Não serei nunca uma cidadã do mundo, neste sentido.Não tenho suporte filosófico nem temperamento para tanto.
Fisicamente tenho que me sentir arraigada.É uma triste constatação, mas é uma constatação.
Minha descendência seguirá, quem sabe, outros caminhos.Eu, bem lá no fundo de mim, sei que permanecerei sempre, e ridiculamente, na casa da minha avó.
Tarsila


 Escrito por Ariane às 18h39
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