POENTE

Tão pouco debaixo do sol,
meus mortos me espiando,
um céu num amplo convite,
e a fadiga, o absurdo e o tédio.
Tudo se transformando
na mistificação do novo,
nenhuma porta se abrindo,
nada se esperançando.
A lenta estrada se estreita,
os pés nos cascalhos tropeçam
e oscilam os olhos em busca de atalhos.
O gosto se dispersa
no que antes era regalo.
O verão se torna frio
nas noites que se prolongam.
O que era pequenino
se dilata em desmesura.
Tanto acúmulo de passado
cabendo num só instante.
A claridade se consome
e se torna ponto informe.
As mãos, por instinto, se agarram
em nesgas de possibilidades.
O ser é o mesmo ser,
mas a dor já é bem outra.
Tudo tem cheiro de adeus
e a cor difusa do ocaso.
Dora
Escrito por Ariane às 21h59
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PALAVRAS

Explode em mim...minha decisão estéril
de então lhe falar
em crua linguagem
ou em finos cristais.
Mas, as palavras opacas,
em vão, ecoam apenas.
Tantas me ocorrem, me acorrem,
na emergência confusa,
escorregam da pena ansiosa...
Não servem, não agem, não ousam.
Tormento insidioso
essa escolha infernal
ante essa densa casca.
Mensagens caleidoscópicas,
viro-as, reviro-as,
onde esconderam a face real?
De que insólito dicionário
brotam tão desordenadas?
São íntimas camaradas
em convívio diuturno,
em solilóquio nas sombras,
fogem todas em tropel,
na surpresa enredadas.
Como sempre, me resta falar,
em desistência assumida,
de mim, comigo e para mim.
Dora
Escrito por Ariane às 18h04
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Convite

Eu te convido pra roubarmos fruta.
Além daquela esquina, um pomar imenso se adivinha.
O dono é um homem sério,
desses que perseguem com um porrete as crianças.
Por isso te convido pra roubarmos fruta,
somente para rirmos e fugirmos do homem sério
que pretende arrancar-nos pela raiz o sonho.
E quer-nos fazer crer que a vida comporta muros
impossíveis.
Meu menino-desdém estende a mão à menina que cultivas. Pulamos o muro,
desfrutamos o Paraíso. Squelleto
Escrito por Ariane às 18h16
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