PARTIDA

Vago pela cama macia
branca,imensa, fria,
sem véu,sem cortina,
despida,nua, incontida.
No côncavo do leito
seu corpo se deita ainda,
e eu aspiro entre soluços
sua inútil presença vazia.
No desencontro das horas
nossas almas se bastavam
entre ardências e procuras
nas dobras das auroras.
Não são adeuses que doem,
mas são as lutas infindas,
inexplicadas, mal-vindas.
Minhas lágrimas por ventura
batiam na estátua pura
em que se transformou seu corpo
imerso na nostalgia.
Nossos sonhos restituídos
para meus sonhos apenas
refluíram, e, de manso,
se esfumaram na partida.
De doído, o que ficou
foi o vazio, o oco, o sem sentido,
onde, embora, outrora, descabido,
cabia você, como escolhido.
Dora Vilela
Escrito por Ariane às 10h29
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FAGULHAS

Tardou tanto no tempo
minha profecia
de noites vindouras
de loucas magias
em danças e véus,
filtros , poções.
O amor prometido
nos cinco sentidos,
no castelo encantado,
e o peito agitado,
que o mundo enfeixava.
Tudo tardou tanto
que a espera encaneceu
com o cansado tédio das horas.
E neste amor velho de agora
cabem todas as sobras
e arremedos de paixão,
cinzas de um fogo tão frio,
ridículas cinzas sobre um fogão.
Dora Vilela
Escrito por Ariane às 22h49
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