Retalhos Amigos


SEM RODEIOS

Venha, meu amado,
se achegue sem culpa.
Esqueça a burocracia.
Nosso código de leis
está escrito nas estrelas.
Venha me achar escondida,
nos folguedos que já brincamos.
Visite minha geografia,
se instale na minha planície.
Venha, amado meu,
tão antigo e novo...
me conte suas histórias,
sem receio das lágrimas ciumentas,
me diga por onde andou,
ou não me conte nada...
Retome o que é seu,
desperte meu ser adormecido,
tome posse de suas terras,
que ficaram improdutivas,
e hoje se abrem em flores,
que minha boca lhe oferta.
Dora Vilela


 Escrito por Dora às 21h32
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MONOTONIA

A manhã parece calma

e, na verdade, o é.

De tão calma e sem repentes,

retrata o que me desmancha,

me torna mansa e omissa.

Na mesmice vagarosa,

na pequenez que me envolve,

essa manhã só me mostra

o confuso do meu ser.

A mesma janela aberta

para um idêntico dia

para um moroso passar

que anda do nada ao nada.

A manhã se desenrola,

evoluindo em clarões,

meu viver se agarra nela

e se compassa de leve.

Ela se estende na noite,

fico pasma, por notar,

na mesma janela aberta,

enquanto eu me perco na bruma,

a manhã virou luar.

Dora Vilela



 Escrito por Dora às 13h41
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REFÚGIO

No pouco a pouco

construo um mundo de aconchego.

Penetro nele, piso o tapete,

tudo é eloqüente, pequeno amigo.

Meu repouso, minha rede,

quente lareira, foyer central,

dentro é calor, parede e cal.

É meu casulo, meu ventre maternal,

minha volta ao meu eu,

meu retorno, meu natural.

Me achego à casa,

como quem chega de uma viagem,

estranho e doce, meu lar me chama,

me esconde e canta, a me ninar.

É quente e abrange , num grande abraço,

meu ser cansado de peregrinar.

Acolhe e cura minha procura,

me ama e me envolve, a me embalar.

Dora Vilela


 Escrito por Dora às 22h35
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SEM RETORNO

Na mão estendida, a cigana perscruta,
examina, desliza nas linhas, nos vãos,
lê os escaninhos da palma virada,
escancarada, à sua mercê.
 
Sabe a altura da minha subida,
me enxerga a escalada e augura,
assegura um porvir e um devir.
 
Não vê a pobre, porém, o desfeito,
o não feito, o interminado
passado, ansiosamente desejado.
 
A cigana, sabendo prever,
não pode , entanto, devolver
o que nem mesmo foi.
 
Somente eu continuo a guardar
como flores entre papéis
o morto desejo, insatisfeito,
no abismo do eu.
Dora Vilela


 Escrito por Dora às 21h42
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