Retalhos Amigos


SENTIMENTO

Não te exaltes, coração,

há palavras inacabadas,

como feto em formação.

Às vezes, só esperam

a própria geração.

Permanecem quedas,

guardadas no silêncio,

ansiosas pelas mãos

que as farão reviver.

As minhas mãos,

as outras mãos,

que palavras tentam escrever!

Tentam soprar-lhes a vida

impulsioná-las em auto-projeção.

Elas se restringem e até cabem

no meu e no outro pensamento,

se enlanguescem conforme o manejo,

se enrijecem em contrária direção.

Meu coração, não te envolvas com as palavras,

não te entregues nestas mãos.

Conserva teu silêncio,

acalenta teu desassosssego.

Nada te servirá

de desequilibrada ponte.

Tua maior sensatez

é teu inquieto segredo,

teu perpétuo movimeto

em explosão no meu peito.

Dora Vilela



 Escrito por Dora às 21h26
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INEVITÁVEL

As pessoas passam na calçada,

pisam o chão que não é mais solo,

e não tocam a sua semente.

O progresso é o senhor dos tempos,

e propõe novas dimensões.

Minha mão toca o espaço entre os homens

e agarra o ar denso das sensações indizíveis.

Uma orquestração se ergue

dos sons ainda desencontrados.

Cruzamentos sem sentido

para as máquinas que conduzem homens,

luzes simétricas, mensagens convulsivas

que escorrem para o supérfluo.

Máscaras cansadas, falas exaustas,

saudades do próprio ser...

Onde me escondi,

onde se escondeu o princípio

de tantas armações e molduras?

Imposições tão desapercebidas,

mas as pessoas prosseguem,

desprovidas de suas armas ancestrais.

Sigo, também, solidária e amiga,

sem fibra e sem ossos.

Minhas ofertas se perderam

e falharam na meta longínqua.

Doei meus sonhos, emprestei minha lança,

meu rumo apaguei e me fiz feliz.

Falo às pessoas e apenas as amo.

Dora Vilela



 Escrito por Dora às 13h21
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ESPERANÇA

O domingo é letárgico.

Pausa na busca frenética

da corrida do ouro.

Compasso de espera.

Unanimidade.

O domingo é fora do tempo,

tem vida própria e criatividade.

O domingo não é artificial,

é dia inerente à humana condição.

O domingo respira à larga,

faz bailes e envia cartas de amor.

Contempla braços dados,

mãos entrelaçadas,

distribui beijos e suspiros.

Afrouxa os colarinhos

e areja as repartições.

O domingo já nasce vadio,

buscando sol,

ou chuvinha miúda.

Não rima com fato aprazado,

nem combina com passo apressado.

E o domingo acabado

espera o próximo domingo:

única verdade em que o homem confia.

Dora Vilela



 Escrito por Dora às 18h28
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