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Berço

Vale do Paraíba,
meu palco velho conhecido,
suas montanhas me viram nascer,
embalaram-me em seu ventre verdejante.
Cresci na proteção paterna,
e no abraço destas montanhas.
Nas águas do Rio Paraíba
aprendi outros rios do mundo.
Antecedem-me as histórias
do ciclo do café, das arcaicas fazendas,
dos coronéis poderosos
criadores de gado e de lendas.
Minhas heranças genéticas,
portadoras das glórias passadas,
carregam também as senzalas
e os lamentos do sangue mesclado.
Como este vale das minhas lembranças,
exibo sempre este jeito ondulado,
um rio correndo em mim
do relevo que me moldou.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 22h08
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DESCONHECIDO

Meu mistério, acalento-o.
Alimento-o e ele me presenteia
com seus sobejos, suas migalhas.
Na minha ordem, sinto falta dele,
então vivo com ele,
rasgada, dilacerada,
mas eu o amo, porque ele me identifica.
Meu mistério, meu enigma,
meu impulso vital...
Não o conheço, não dialogamos.
Vislumbro-o em relâmpagos raros
e tênues arrepios.
Convivemos e ele me nomeia,
ele me diferencia,
ele me reverencia.
Sofro e sangro,
mas agradeço as veredas
que ele me prenuncia.
Meu mistério, metade de mim,
que sou ele inteira.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 18h21
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MUSAS ALHEIAS

Não faço versos como quem morre,
antes neles me renasço,
e aproveito prá fingir
na afirmação da verdade.
Não contesto que o amor
seja infinito enquanto dure,
mas prefiro a eternidade
fora do tempo e da dor.
Gasto horas pensando um verso
que a pena nem chega a escrever.
No tormento destas horas
me perco no desencanto.
As aves que gorgeiam em minha terra
talvez me tragam descanso,
mas minha alma errante e erma
mais se dispõe ao degredo.
Não discordo dos poetas,
- nem poesia aceita acordos -
antes lhes invejo as musas
prá mim tão surdas e mortas. Dora Vilela
Escrito por Dora às 14h14
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CONVALESCENTE

E vou vivendo,
além do caminho,
malgrado os tropeços,
além das feridas.
Escolho jeitosa
os paliativos, as muletas,
as compressas.
Vou simulando a recuperação,
aqui uma canção,
acolá, um poeta.
De cancioneiros e poesia,
de sonho e utopia,
forrei o solo, ergui o telhado,
preenchi as paredes.
Com cautela, deslizo meus chinelos.
Na surdina, afino meu piano,
prá não espantar os fantasmas,
prá não despertar a dor.
E, com mão trêmula ainda,
rego as flores do meu jardim.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 15h18
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SINA

Qual desejo, qual anseio buscas?
Identifica-o, para enumerá-lo.
Será apenas o começo de outros que virão,
aparentemente desiguais,
ilusoriamente eficazes,
falsamente brilhantes.
O desejo humano é sempre o mesmo,
e o teu vazio não se preencherá,
ainda que o alcances.
Mas, há que se ter desejos
e correr ao seu encalço,
prá se cumprir a vida
e nela permanecer,
sorrindo ou chorando,
e ainda ansiando
prá se ter sempre desejos
de se desejar. Dora Vilela
Escrito por Dora às 08h40
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