Invoco tua presença,
oh! tu, que tantas causas abraças,
tantas teorias, abstrações e dilemas.
Preciso de ti que me elevas nas asas
que me mostras as nascentes,
que me acenas com as auroras
e com os poentes.
Tu, que me desprendes
meus pés de chumbo
do laborioso e duro chão.
Eu, que me prendo às estações do ano
e me aferro no empenho do braço,
de ti espero a leveza do aço.
Tu, que és ligeira
e que me foges na dança
que és meu inferno
e minha esperança.
Eu, que me atenho à insensata missão
de escravo que me doei,
recorro a ti que me faças livre,
para, de novo, te encontrar perdido.
Tu, oh! tu, que me necessitas,
mas me ultrapassas infinita,
que me retardas os passos
nos volteios de tua graça.
Eu, que me cubro de cinzas,
que vejo tão nítida a luz,
me agarro à tua penumbra,
deslumbrado em te iluminar.
Tu, que contemplas o trigo,
do qual te oferto meu pão
a ti que te nutres das brisas
e te sacias com o orvalho,
aceita meu ser pesado
de barro e desolação.
O sol de teus poemas
e o mesmo que me alimenta,
as verdades que tu cantas
traduzo-as em minha matéria.
O que me causa cansaço
transformas em melodias,
me acolhes em teus versos,
te transponho em flores vivas.
Tu me prolongas nos ares,
eu te dedico a minha lida.
Tu, meu navio errante.
Eu, tua âncora escondida.
[poema a 4 mãos: Luiz e Dora Vilela]
Escrito por Dora às 21h04
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