Retalhos Amigos


Inconcluso

Não me defino criadora ou corrosiva.

Destruo o momento

no momento em que o vivo,

mas, momentaneamente já crio

o outro momento que virá.

De morte em morte,

edifico a vida

numa perpétua corrente.

Que ouvidos "aparentados"

possam captar o que digo,

porque vejo mortos ambulantes,

sem languidez aparente.

E no berço do recém-nascido

presencio o túmulo e as flores.

Não, não é morbidez a minha,

é antes um sim à vida

e um convite contraditório

para adentrar o momento

e a sua efemeridade,

num mergulho tão profundo

de quem dele não vai emergir.

Antegozar o alvorecer

antes da noite findar,

antecipar em potência

o ato vindouro e oportuno.

Viver, pois, morrendo em paixões,

num processo pleno de espera

num ponderar de contrastes

daquela incerteza tão certa.

Escolher um percurso ao acaso,

porque iguais são todos os percursos,

apenas se dissimulam

em díspares bizarrias,

ou não escolher nada,

ser escolhido, talvez,

porque intrincado é o jogo

deste ser ou não-ser.

E mais decisivo ainda

é aceitar que tudo é assim

e assim sempre será,

até que as regras do jogo

consintam em se desregrar.



 Escrito por Dora às 09h48
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SOLUÇÕES

 
Solidão é tema de poesia e letra de música,
é rima comum, nem rica, nem pobre,
mas é de sólida origem
e confusa percepção.
Estar só não é desprazer,
o ser-só é o âmago da questão.
Solidão é estar inerte
e senti-la profundamente,
penetrar nela e afastar-se dela,
na liberdade do quarto,
fazer amor com ela,
e sorver-se de escravidão,
no acalento do medo,
em calidez de prisão.
Só, sozinho, se é livre
sem amarras, compromissos, relações.
Solidão não é fora, nem dentro,
é um estado comprovado,
do antes do berço,
mesmo entre braços e amplexos,
na maior proximidade,
na integração das almas,
na doce fusão dos corpos,
o ser único fica inteiro,
palpável, palpitante,
e, na consciência da feliz solidão.
Dora Vilela


 Escrito por Dora às 15h49
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Invoco tua presença,
oh! tu, que tantas causas abraças,
tantas teorias, abstrações e dilemas.
Preciso de ti que me elevas nas asas
que me mostras as nascentes,
que me acenas com as auroras
e com os poentes.
Tu, que me desprendes
meus pés de chumbo
do laborioso e duro chão.
Eu, que me prendo às estações do ano
e me aferro no empenho do braço,
de ti espero a leveza do aço.
Tu, que és ligeira
e que me foges na dança
que és meu inferno
e minha esperança.
Eu, que me atenho à insensata missão
de escravo que me doei,
recorro a ti que me faças livre,
para, de novo, te encontrar perdido.
Tu, oh! tu, que me necessitas,
mas me ultrapassas infinita,
que me retardas os passos
nos volteios de tua graça.
Eu, que me cubro de cinzas,
que vejo tão nítida a luz,
me agarro à tua penumbra,
deslumbrado em te iluminar.
Tu, que contemplas o trigo,
do qual te oferto meu pão
a ti que te nutres das brisas
e te sacias com o orvalho,
aceita meu ser pesado
de barro e desolação.
O sol de teus poemas
e o mesmo que me alimenta,
as verdades que tu cantas
traduzo-as em minha matéria.
O que me causa cansaço
transformas em melodias,
me acolhes em teus versos,
te transponho em flores vivas.
Tu me prolongas nos ares,
eu te dedico a minha lida.
Tu, meu navio errante.
Eu, tua âncora escondida.
[poema a 4 mãos: Luiz e Dora Vilela]


 Escrito por Dora às 21h04
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POETIZAR

Viver na rebeldia do prosaico,

desmantelar e reconstruir,

lançar hipóteses sem comprovação,

criar mitos e lendas,

zombar do perigo, a salvo, na borda do precipício.

Abrir sulcos na própria estrada,

na carícia do vento,

que desmancha e enovela.

Viajar a esmo e fingir a certeza do itinerário,

ver o inacreditável dos fenômenos,

tontear no percurso das nuvens,

e se ocultar em signos aleatórios.

Desejar não-ser e permanecer sendo...

No silêncio das entrelinhas.

Dora Vilela



 Escrito por Dora às 10h13
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