PRESENTE

Veio do mar, na brisa da manhã,
me trouxe a maresia,
o sol, a nudez, a melodia,
chegou de surpresa,
fez-se aparição,
moldou-se em fantasia.
Com o mar, trouxe o abismo,
trouxe um corpo de sal,
um olhar verde de algas
e um falar de onda macia.
Aportou no meu cais,
contou lendas de piratas,
encantou-me com poesia.
Apontou-me o pôr-do-sol,
ensinou-me pescaria,
me arranjou bancos de areia,
me mostrou conchas vazias,
me prendeu na sua rede,
me ofertou um bracelete,
me levou em companhia.
Sem saber o que fazia,
me tornei aquosa e fria,
no doce balanço do mar,
no vento, na calmaria.
Mas, o ar frio da noite
dissolveu sua energia,
meu fantasma tão vivente
se perdeu leve na bruma...
Só, sozinha,entontecida,
entre-sonhando olhei as mãos,
que, no esforço da partida,
apertavam incrédulas,
um bracelete de pérolas.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 20h23
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SÃO PAULO,CAPITAL
Cidade grande, desigual,
de homens desiguais,
igualados no medíocre,
na cobiça, na ambição..
Sinal dos tempos, sinal de alerta,
São Paulo é o símbolo
poderoso, imenso, da queda e da perda.
Viver nesta terra, é perder-se de si,
é juntar-se ao monstro de tantas pernas,
centopéia ambulante, sem rosto, sem cor.
Metrópole madrasta, travestida de humana,
acolhendo os povos, as raças, os credos,
amassa e condensa em cadinho infernal
tanta fome de vida, tornada comum.
São Paulo da garoa, do bonde, do Tietê,
não precisava crescer, engolindo o céu,
céu adivinhado, do chão não se vê.
Que tesouro encobre, que atrai os incautos,
que aí sobrevivem, nem sabem porquê,
agarrados na terra que inesgotável se crê?
Poluindo corações, sequiosos de você,
São Paulo, face anônima,
da gente-número-série,
valorizada em quantias,
na avaliação sem pudor, de classe,
gênero e espécie.
São Paulo, mãe d'água que atrai,
Eldorado insensível e sem dó,
em suas entranhas de asfalto,
a miséria se enfeita de ouro,
que brilha, cega, conquista,
para, enfim, como ao rei Midas,
matar de fome de vida.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 23h09
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OBJETO DO DESEJO
Não quero o tempo,
nem a memória, nem a linguagem,
nem modo algum existente
de comunicação.
Preciso banir os residuos todos
dos poros, dos vãos da lembrança,
não quero contar com as formas dos prestativos pretéritos.
Me proponho a minha forma,
sem fórmula e sem bula,
do meu narcisismo, da minha desinformação.
Desejo a sintaxe codificada
e a palavra sem significado,
sem cor, a não ser a que eu lhe der.
Necessito urgente um meio
de arrancar com fórceps,
em dolorosa maiêutica
minha definitiva expressão.
Convocaria até mesmo
um coro de anjos,
o que talvez conviesse
à tão penosa carência.
Sim, aos anjos me confiaria,
bastando calar-me,
e a eles encomendando
meu derradeiro epitáfio.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 22h34
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