Retalhos Amigos


ENTRE DOIS PONTOS

Do alto penhasco, contemplo o abismo,
não temo as alturas, só temo o caminho
entre o salto e a queda.
 
O início e o fim são extremos tão fixos,
o meio, a passagem, a ponte são só dúvidas,
se multiplicam, variam, tonteiam.
 
Quem não sabe que nasceu,
ou a que final chegará,
mas quem sabe o percurso, o entremeio?
 
O doloroso da vida é a vida, ela mesma,
ela é a medida entre os pontos,
é o recheio, é o vão, é o enigma.
Dora Vilela


 Escrito por Dora às 17h25
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O VELHO

Jogou fora o cigarro de palha, com um piparote. Fazia gestos vivazes com a memória ritualística da vida toda.
Era velho, à sua revelia. Ainda ouvia, lá do passado, o arrastar dos chinelos do pai, que o faria engolir o maldito embrulhinho de fogo.
Gostava até hoje de fumar, pela manhãzinha, depois do café forte e escaldante, pelando a parte interna dos lábios, provando devagarinho o sabor do nascer do dia.
Depois, lentamente, descascava o fumo, com o antigo canivete, enrolava na palha, bem fininho, fazendo o rolo sempre igual.
E com o pensamento longe, tirava as primeiras baforadas fundas, soprando a fumaça odorosa para cima.
Esta era sua preciosa parte do dia, não tendo que compartilhar com ninguém o pequeno prazer. Seguindo os rolos de fumaça, que se desfaziam no ar, gastava as idéias bobamente, lembrando-se do pai que lhe dissera aquelas bobagens acerca do cigarro.
O pai morrera prematuramente e ele, com vício de fumante e tudo, lá estava, tão idoso e longevo, com pigarro na garganta e momentos plenos de vida já gozados.
Com lentidão trêmula, ergueu-se do banco e espiou se a senhora que cuidava da casa andava por perto.
Chamou-a, com irritação na voz, porque não suportava aquela presença estranha e imposta à força pelos filhos. Não se sentia livre dentro da própria casa, com aquela mulher, alheia ao seu mundo, a mexer nas suas coisas, nos seus pertences.
Coisa mais sem propósito, alguém entrar no seu quarto, abrir cortinas, escancarar janelas, reclamando entredentes do cheiro do fumo. Falta de respeito, de pudor, uma estranha arranjar seus lençóis e travesseiros, sacudir cobertores, espalhando pelo ar seus segredos noturnos e sua sudorese íntima.
Não fosse aquela maldita escada da frente da casa, colocaria  a estranha para fora. Mas precisava de alguém, para buscar o fumo no armazém, o jornal e o café.
Estava rabugento, porém lúcido, tirando-se as pequenas falhas de memória.
E a desgraçada da velha bem que estava escondendo dele os rolos de fumo, a mando dos filhos.
Entretanto, havia a gaveta, com fundo falso, seu abençoado esconderijo, onde acumulava avaramente os restos dos cigarros, no caso de emergência.
Ela já havia passado mesmo dos limites de sua tolerância de velho. Sempre fora pacato, de bons modos, de índole calma, porém exigia respeito para com seus hábitos. O ser humano tem lá suas necessidades, ora.
Desafiara o pai, desafiara a medicina e a vida. Não era uma mulher à toa que iria impedi-lo de sonhar ainda.
Pensando e resmungando baixinho, dirigiu-se à gaveta. Abriu-a , retirou o fundo e, com estupefação, encontrou tudo vazio.
Ficou zonzo, a cabeça girando de raiva, os olhos arregalados de rancor.
Andou uns passos pelo quarto, com as mãos trêmulas, respirou fundo e dirigiu-se para a escada. Chamou a empregada com voz alterada e esperou.
Pediu-lhe, com contida moderação, que descesse para certificar-se se alguém batera à porta.
Quando ela, de maus modos, passou por ele, empurrou-a com toda sua força de velho, escada abaixo.
A outra se desequilibrou, rolando com estrondo os degraus, quedando-se no solo, muda, sem um gemido, o pescoço deslocado.
Ele olhou-a por algum tempo, esfregou as mãos e, num riso moleque, dirigiu-se ao quarto para continuar a vasculhá-lo, na busca do fumo.
Dora Vilela


 Escrito por Dora às 12h38
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