QUASE BIOGRAFIA

Nua, em pé dentro da banheira branca, eu borrifava água na boca aberta dos peixinhos. Queria dar de beber a cada um deles, desenhados em tons vivos, bem rechonchudos, na cortina de plástico que cercava a banheira.
Molhava toda a beirada, sem nada perceber, distraída em contar e recontar se não faltava nenhum peixinho para beber. Não me cansava nem me entediava nunca olhando os bichinhos com as boquinhas redondas, bem abertas, como a implorar pelas gotas d'água.
De repente, num sobressalto, ouvia mamãe a bater na porta, perguntando se eu morrera lá dentro. Sempre achava graça naquela espécie de pergunta retórica. Como eu poderia ter morrido? Ou será que poderia?
Olhando meus pés arroxeados pelo tempo em que eu estivera dentro d'água, imaginava como seria se eu tivesse morrido lá na banheira.
Mamãe não se dava conta do que falara. Era uma forma corriqueira aquela de perguntar se alguém morrera, uma entre tantas manias que se adquirem nas conversas comuns do cotidiano. Mas, as pessoas deveriam examinar o que falavam. Diria isto a mamãe e ela se mostraria surpresa com mais uma das minhas invencionices.
Eu saía do banheiro, enrolada na toalha e corria para o meu quarto, onde mergulhava na cama, antes de colocar roupa.
De barriga para cima, olhando o forro de madeira, encaixada em trilhos que me lembravam vários caminhos de trem, lá voltava eu a cismar.
Pensava nos trens que poderiam passar por cima de minha cabeça, indo e voltando pelo quarto inteiro.
Mamãe chegava a perder a paciência e se irritava com meus devaneios.
Às vezes, ouvia-a resmungar se eu não seria desmiolada ou tonta, com aquela inconseqüência de me esquecer das horas.
No entanto, ela mesma sabia que eu não era irresponsável nos deveres, em casa ou na escola. Ao contrário, superava todas as expectativas dela em qualquer atribuição, sobretudo de caráter intelectual.
Porém, não conseguia nunca me livrar daquelas manias de perder a noção do tempo, quando me punha a fantasiar.
Se eu ia comprar pequenas encomendas dela na padaria próxima, era comum eu perder o dinheiro na rua ou me esquecer do troco no balcão da loja.
Sempre fora motivo de risos por parte dos adultos da família que conheciam minha fama de distraída e dispersa.
Cresci assim e acho que piorei.
Desenvolvi a tendência de valorizar a introspecção e a forma de aperfeiçoar minuciosamente e personalizar cada coisa: burilar manualmente, tornar a coisa tão íntima, entronizá-la na memória, na pele, no ser.
Toda atividade massificante, sem rosto, sem toque pessoal me passou a ser odiosa, frustrante e cansativa.
Com o crescente progresso industrial, marca da minha era, com a famigerada tecnologia, mantive sempre uma relação de fuga e pânico.
Somente a duras penas, fui aceitando a realidade que me foi chegando, a mim me parecendo um mundo árido, impesssoal, que quase me aniquilou e me transformou num ente solitário entre as gentes.
Não fui vencida pela máquina, porque sempre brota uma flor no asfalto.Mas jamais consegui uma convivência pacífica com tal realidade.
Minha luta foi sempre desigual, ridícula. Paguei alto o meu tributo de viver no tempo que me foi designado.
Enfim, vivi comigo mesma e com o mundo, em dicotomias profundas, que acabaram por me conformar o temperamento e o modo de ser.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 18h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|