 |
AMBIÇÃO

queria poema duro,
másculo e forte,
de apontar com o dedo,
em riste,
de mostrar o ouro
prá quem não vê...
queria palavra convexa
abrangendo coisa,
afastando finuras,
iluminuras, fechaduras...
queria verbo de envergadura,
chão de terra batida,
pisado de pés nus,
encontro de naturezas...
queria, como queria!
não ter pieguice de frases,
não ter medo do fundo dos rios
e ter coragem de profeta...
queria também
só chorar prá dentro,
ante a verdade do vento,
ante a dureza da pedra,
na verdura do mato...
queria, mas não atino
com esse talento de força,
esse poder dito viril
e exibo só
poucas frágeis linhas
de vocábulos descarnados
adjetivados,
sem a substância
da veracidade
da rude vida!
Dora Vilela
Escrito por Dora às 10h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DESVANESCENTE

fora do tempo,
espero a hora,
o luar lá fora,
a areia prateada,
o coração nas mãos,
a espreita nos gestos,
o gosto na boca,
os sentidos despertos,
a brasa no corpo...
a hora se gasta,
a lua se esconde
nas nuvens dispersas
a areia escurece,
o coração se divide
os gestos se crispam,
a boca se amarga,
os laços se rompem,
os sentidos se esgotam...
a hora se despe,
a lua adormece,
o corpo amortece,
as mãos envelhecem,
a boca se torce,
o viver se entorpece...
Dora Vilela
Escrito por Dora às 09h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NOMEAÇÃO

Peço desculpas sinceras
por não compreender
aqueles que me sinalizam
que me agitam os corações
feito alvos lenços,
que me puxam pelo braço,
que me chamam pelo nome.
Estonteada, decifro mal esses apelos.
Quero entender o mendigo de chapéu na mão,
é só uma esmola que deseja?
é só uma história que me conta?
é só um maltrapilho faminto?
Necessito dar nome ao sobressalto que me causa.
Tenho que desvendar a sensação intensa
de culpa, de dúvida, de impasse,
que me transmite no olhar.
Preciso nomear cada instantâneo
dos indecifráveis chamados.
E os subterfúgios, e as lacunas,
e os não-ditos?
E o roteiro deste estranho itinerário
que afinal não escolhi?
Que fazer do descompasso,
da inadequação,
do desencaixe?
Reitero minhas desculpas,
e continuo calada.
Escrito por Dora às 17h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
GATO

Escolho o momento,
arranjo o close,
espremo o olho
na objetiva da minha máquina.
Enquadro o gato, na minha soleira,
o trago prá perto, bem sorrateira,
miro, remiro, acerto,
aperto o botão.
Quero fixá-lo, gravá-lo,
olhá-lo nos olhos,
a este gato, felino dengoso,
ímã terrível da minha câmera.
Tento captá-lo, apreendê-lo,
penetrar seu segredo,
desvendar seu mistério
de existir sem medo.
Ele vive com força,
sete vidas, talvez,
sem luta, sem drama.
Só vive, revive,
me atiça esta chama
de ser gato também
(sendo eu mesma e minha dona).
Dora Vilela
Escrito por Dora às 19h05
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
HERDEIROS

A meus filhos
farei testamento,
transmitindo, além do legado
em sangue e falsa liberdade,
um medo imenso e ancestral
que de meus pais recebi.
Não é oferta honesta,
nem laborada em franca opção,
nem de punho próprio lavrada.
Mas, é herança que não se desdenha
do impossível resgate que tem.
Meu medo os percorrerá
pelas veias,
sob a pele,
arquétipo indesejável,
que me susteve e os sustentará.
Tive medo de viver,
de acordar
de ver no espelho
a verdade revelada.
Passei medo ao navegar
entre vagalhões e brisas.
Tive medo do medo
e o susto das revelações.
Ancorei num sumidouro
de vozes e fantasmas.
E o medo na garganta
com seus dedos hirtos
me ensinou que ter medo
é o mesmo que ter nascido.
Ora o lego a meus filhos,
que o ganharão na estima
e o sentirão com orgulho
de materna e genuína herança.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 09h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |



|
 |