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INCOMUNICABILIDADE

Meu grito não ouvem,
meu sussurro o vento leva,
minha eloqüência é muda,
minha paixão é inócua.
Meus gestos são insensíveis,
minhas lágrimas desapercebidas,
minha profecia é vã,
minha tristeza, escarnecida.
Se falo, minha palavra é tola,
tão tola quanto a intenção
de a falar, sabendo-a inútil.
Inútil é pensar e criar.
O que sai de mim está perdido,
o que vem prá mim se consome,
o que percebo, não uso,
e do que não uso, careço.
Meu sorriso me antecede
na ironia que respiro,
minha voz é só a ilusão
das sombras do que pressinto.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 08h49
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Poema singelo de Natal
Natal para o mundo,
para cada consciência,
caindo em filigranas,
douradas, prateadas,
num só laço inteiro,
embrulhando o planeta,
num mimo agradável,
em papel de oferenda.
Natal que se oferece
em prece e perdão,
não importa o motivo,
é sempre a ocasião.
Que nasça o Menino,
se encarne, nos salve,
o preço do enlace
é só a união.
Mãos universais,
entrelaçadas, trançadas,
formando um cordão,
que ultrapasse os limites
do seu e o do irmão.
Natal, solene e leve,
sopre sua brisa
em cada um de nós,
que a graça,
mistério escondido,
quem sabe, ainda renasça,
em algum de nós escolhido.
Dora Vilela
Escrito por Dora às 07h40
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COMBATE DESIGUAL

Na praia deserta, propícia,
cenário ideal de areia enganosa,
afundo meus pés, em colóquio
com o mar de sempre.
Ele vem e provoca,
se retrai, se enovela,
num falso rodeio
de duelo já pronto.
Posso fugir, posso ficar,
suas ondas se riem
da minha vertigem
que teima em voltar.
Confirma sua força
num ruído de estrondo,
confunde minha fala
que se perde, se cala.
Ele é parte de mim,
eu sou feita dele,
ele tem sua forma
de me transtornar.
Mas, posso contê-lo,
apagá-lo, bebê-lo,
com todo meu empenho...
Pensamento humano, mortal...
Dora Vilela
Escrito por Dora às 11h23
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SONHO DE PODER

Ah! ser dona do mundo
e mãe de todos os homens,
acalentá-los num único abraço,
transformar-me, de inesperado,
em coadjuvante divina,
soprar-lhes a vida e a graça,
viajando ao início do caos,
de um enorme e fecundo ventre
doá-los à luz novamente,
ser mãe dos homens todos,
junto a eles, irmanada,
ser-lhes o ser e o tempo,
possuí-los em mim,
carregá-los nos braços,
sem cruz e sem morto passado,
só a esperança à frente
a guiar-nos os passos,
só a clara e límpida madrugada
de um ceú lavado, inocente,
que minhas mãos ansiosas
irão desenrolar
feito larga esteira
ante esta vasta orfandade
que então acolherei
em fértil maternidade!
Dora Vilela
Escrito por Dora às 17h33
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